quinta-feira, 14 de agosto de 2014

A maior dificuldade que os surdos encontram é a comunicacional.  Os surdos do nosso país têm sua língua materna, a LIBRAS, mas poucas pessoas sabem esta língua! Para entender melhor a dificuldade que os surdos enfrentam, imagine-se visitando um país onde você não conhece a língua e não consegue se comunicar. É assim que os surdos se sentem, mas com uma diferença: eles estão no seu próprio país!

Dentre os surdos, existem aqueles que se comunicam através da língua de sinais e aqueles que são oralizados, ou seja, se comunicam através da fala oral e da leitura labial/facial. E existem ainda aqueles que são bimodais, que se comunicam das duas formas, dominando o Português e a Libras.



 Hoje vamos dedicar este post a você que se interessa por saber um pouco mais sobre a Língua Brasileira de Sinais!


 Quando o assunto é LIBRAS, muitas pessoas me perguntam: A Libras é uma Linguagem Universal?

Bom, para começar a entender, devo dizer que LIBRAS ou LSB é uma sigla para "Língua Brasileira de Sinais", ou Língua de Sinais Brasileira. Então, se prestarmos atenção ao nome, perceberemos que:

1 - NÃO é linguagem, é uma LÍNGUA.
2 - NÃO é universal, é BRASILEIRA!

Deixe-me explicar melhor…

1. Existe uma diferença entre “linguagem” e “língua”. Muita gente confunde por achar que é uma linguagem e pensam que os sinais são gestos ou mímicas sem estrutura nenhuma, mas a Libras é uma língua com gramática própria, inclusive tem uma estrutura de frase própria e diferente da estrutura gramatical do Português.

As línguas de sinais são diferentes das línguas orais porque são visual-espaciais e não oral-auditivas. Os sinais articulam-se espacialmente e são percebidos visualmente.

Os surdos que se utilizam das Libras ouvem com os olhos e falam com as mãos! Diferente do Braille, que é um sistema de leitura com o tato, onde cada conjunto de pontos corresponde a uma letra ou número e, para escrever uma palavra, escreve-se letra por letra acompanhando, no caso, o Português.

Já a Libras tem toda uma estrutura gramatical própria, não se faz tudo letra por letra. Existe sim o alfabeto em Libras, e muitas pessoas já tiveram contato com ele, ou quando eram crianças que aprenderam com a música da Xuxa, “A de amor, B de baixinho…” Lembram? Ou já compraram um pacote de balas com um papelzinho impresso com os desenhos das mãozinhas do Alfabeto Manual.

Nas Libras, usamos a datilologia para expressar nome de pessoas, localidades e outras palavras que não possuem um sinal específico, mas cada palavra tem um SINAL, sinal este composto por 5 parâmetros: configuração de mãos, ponto de articulação, movimento, direção e expressão facial e corporal.

2. A Libras não é universal, ela é Brasileira.  




A Libra é a 2ª língua oficial do nosso país! Foi pelo decreto 5626/2005 que regulamenta a Lei n. 10.436 de 24 e abril de 2002 que o governo reconheceu a Libras como língua materna da população surda do Brasil.
  
Da mesma forma que pessoas ouvintes de diferentes países falam línguas diferentes, pessoas surdas inseridas na cultura surda de seu país falam a língua de sinais de seu país.

Existem diversas línguas de sinais, como a Língua de Sinais Francesa, Americana, Chilena, Argentina, Inglesa e outras, sendo cada uma diferente da outra. E a língua de sinais de um país não tem necessariamente relação direta com a língua oral falada neste país.

Por exemplo: o inglês é um idioma falado em vários países como Inglaterra, Estados Unidos, Canadá e Austrália, mas nem por isso todos se utilizam da mesma língua de sinais. Nos EUA e Canadá eles utilizam a ASL (American Sign Language), mas na Inglaterra, por exemplo, eles utilizam a BSL (British Sign Language) e na Austrália a Auslan (Australian Sign Language).

Uma coisa interessante é que, apesar de as línguas de sinais serem diferentes em cada país, os surdos de países diferentes se comunicam mais facilmente do que ouvintes de países diferentes.

Já conheci surdos de outros países como França, Espanha e Turquia e a comunicação foi bem mais fácil e rápida do que se fossem ouvintes e eu tivesse que falar em Francês, Espanhol (Catalão) ou Turco. Acredito que seja exatamente por ser uma língua visual e uma língua onde a expressão facial e corporal tem grande importância.

Assim como em outras línguas, existem também os regionalismos e as gírias em diferentes regiões do Brasil, às vezes havendo diferenças de sinais dependendo da região do país. No Brasil, dependendo da região, falamos mandioca, macaxeira ou aipim. Da mesma forma, na Libras existem os regionalismos, o que fortalece o sentido de língua!

Enfim, essas são apenas algumas informações básicas sobre a LIBRAS.

Mas então você pensa: só posso ser acessível se souber Libras?

Existem momentos em que não tem jeito, há mesmo a necessidade de um surdo ou um intérprete de Libras, mas por outro lado isso não é tudo!

Acessibilidade para surdos é muito mais do que isso. Vou passar aqui somente algumas coisas que podem ser feitas para uma maior acessibilidade para surdos:


·         Em espaços públicos - Sinalização adequada;
· Sinalização deve ser clara e intuitiva, fazendo uso de pictogramas;
· No caso de alarmes ou chamada de senhas, precisam ser também visuais ou vibratórios, não devem ser exclusivamente sonoros;
· Fazer uso das tecnologias através de SMS, Tablets (ipad) e e-mails, por exemplo, para pedidos em farmácias, pizzarias, restaurantes e solicitação de serviços em hotéis;
· Para filmes (inclusive nacionais) e programas de televisão, é necessária a legenda ou closed caption em tamanho de fonte adequado;
· Para vídeos/filmes (por exemplo institucionais e informativos) é recomendado o intérprete de Libras, além da legenda;
· Folhetos impressos escritos com a programação, instruções e regras facilitam a comunicação;
· Informações escritas devem ser simples e claras, em português claro, sem palavras muito difíceis e, se possível, com desenhos ou fotos ilustrativas (cardápios, por exemplo);
· Para eventos com intérprete de Libras: local adequado para colocação do intérprete, de modo que o surdo possa visualizar o intérprete e o que está acontecendo no evento.

Espero que tenha esclarecido algumas coisas sobre esta maravilhosa cultura surda e que tenha despertado em você algum interesse em aprender mais.


Carolina Fomin é Arquiteta e Intérprete de Libras

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Resumo de estudo



Considerando todo conteúdo estudado até então, foi possível chegar a algumas conclusões: Observam-se, ao longo da história da educação de surdos, as formas de comunicação oralista, gestualista, total e bilinguismo.
Na visão do Oralismo, a fala e a amplificação da audição devem ser enfatizadas, sendo rejeitado, de maneira explícita e rígida, qualquer uso da língua de sinais. No entanto, quando surgiu o oralismo, esse tipo de comunicação foi fortemente criticado por pesquisadores e estudiosos da época; para esses autores, a língua oral não podia ser adquirida por este tipo de aprendiz pelo processo de aquisição de língua materna, pois, devido à ausência de audição, pode-se considerar que ele não foi exposto a uma primeira língua.
Na visão gestualista, o surdo seria capaz de desenvolver uma linguagem que, ainda que diferente da oral fosse eficaz para a comunicação e que lhes abriria as portas para o conhecimento da cultura, incluindo aquele dirigido para a língua oral.
A Comunicação Total era uma abordagem educacional que apregoava a utilização de todos os tipos possíveis de estratégias no processo de ensino-aprendizagem dos indivíduos surdos. Com o objetivo de fornecer à criança a possibilidade de desenvolver uma comunicação com seus familiares, professores e coetâneos.
O modelo de educação bilíngue tem por objetivo que a criança surda possa ter um desenvolvimento cognitivo-linguístico equivalente ao verificado na criança ouvinte, tendo acesso às duas línguas: a língua de sinais e a língua majoritária. Este modelo contrapõe-se ao oralista porque considera o canal viso gestual de fundamental importância para a aquisição de linguagem da pessoa surda. E contrapõe-se à comunicação total porque defende um espaço efetivo para a língua de sinais no trabalho educacional.
Diante das diferentes abordagens de educação de surdos apresentadas nesta disciplina, é possível concluir que cada qual possui seus prós e contras. No entanto, todas foram muito importantes, pois, possibilitaram reflexões que contribuíram para o processo de desenvolvimento da educação de sujeitos surdos.
Quanto à inclusão de surdos no mercado de trabalho, a constituição federal prevê através de reserva legal de cargos, a obrigatoriedade de empresas com cem (100) ou mais empregados preencherem uma parcela de seus cargos com pessoas com deficiência, entre elas estão os deficientes auditivos. Essa reserva é também conhecida como lei de cotas (art. 93 da Lei n° 8213/91).
Há também essa obrigação de inclusão do deficiente auditivo no setor público, conforme consta na Constituição Federal de 1988: Art. 37, VIII: A lei preservará percentual de cargos e empregos públicos para as Pessoas Portadoras de Deficiência e definirá os critérios de sua admissão.
No entanto, percebe-se que ainda é lento esse processo, o indivíduo surdo tem dificuldades de encontrar emprego, pois, o mercado de trabalho ainda não está preparado para receber pessoas com necessidades especiais. Além disso, a barreira da comunicação torna mais difícil a inclusão social dos deficientes auditivos no ambiente de trabalho. Também é possível perceber através dos relatos, que o trabalhador surdo não é valorizado profissionalmente. Infelizmente as maiorias dos trabalhadores surdos são mal remuneradas e muitos são obrigados a cumprir uma alta carga horária de trabalho para garantir seu emprego ou uma remuneração mais digna.
Em relação à inclusão do aluno surdo no contexto escolar, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira (LDB, nº 9394/1996) estabelece que os sistemas de ensino devam assegurar, principalmente, professores especializados ou devidamente capacitados que possam atuar com qualquer pessoa especial na sala de aula.
Neste sentido, entende-se que o aluno surdo tem o direito de frequentar uma sala de aula da rede regular de ensino e de ser atendido pedagogicamente em suas necessidades.
Entretanto, percebem-se grandes dificuldades por parte das escolas para atender as necessidades educacionais destes alunos.
Entende-se que, de acordo com a perspectiva da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira, o professor deveria ser responsável por mediar e incentivar a construção do conhecimento do aluno surdo, mas infelizmente, a grande maioria dos professores continua ministrando suas aulas em uma perspectiva tradicional, ou seja, não existe uma mudança didático-metodológica para atender as necessidades pedagógicas deste aluno.
Diante disso, entende-se que os processos de inclusão de alunos surdos na perspectiva de ambiente de aprendizagem em contexto de uma sala regular ainda estão em fase de implantação. Atualmente, o aluno surdo está sendo “incluído” na rede regular que possui carência de salas de aula apropriadas, recursos visuais, intérpretes e professores preparados e motivados para o desenvolvimento de novas práticas pedagógicas que atendam todos os alunos em suas peculiaridades educacionais.

A proposta de inclusão escrita nos documentos é muito importante, e tem que sair do papel. No entanto, a inclusão dos alunos surdos se apresenta como um fato novo para a maioria dos professores e profissionais ligados à educação. Neste sentido, o Governo, através do ministério da educação, tem que possibilitar condições favoráveis ao processo de inclusão. Nesta perspectiva, as escolas devem ser reestruturadas para que os professores tenham condições de se capacitarem para atender todos os alunos de modo igualitário. Neste sentido, os professores devem estar abertos a compreender as diferenças educacionais dos alunos surdos e ouvintes, para que possam auxiliá-los através do desenvolvimento de estratégias pedagógicas que atendam essas diferenças.

domingo, 10 de agosto de 2014

Os surdos enquanto minoria lingüística




Não se tem registro de quando os homens começaram a desenvolver comunicações que pudessem ser consideradas línguas. Hoje a raça humana está dividida nos espaços geográficos delimitados politicamente e cada nação tem sua língua ou línguas oficiais como por exemplo, o Canadá que possui a língua inglesa e a francesa. Os países que possuem somente uma língua oficial são politicamente monolíngues, os que possuem duas são biligênese e os que possuem mais de duas, multilíngues. Mas em todos os países, existem minorias linguísticas que por motivo de etnia e/ou emigração mantém suas línguas de origem, embora as línguas oficiais dos países onde estas minorias coabitam ou politicamente fazem parte sejam outras. Este é o caso das tribos indígenas no Brasil e nos Estados Unidos e dos imigrantes que se organizam e continuam utilizando suas línguas de origem, como nos Estados Unidos e na França. Os indivíduos destas minorias geralmente são discriminados e precisam se tornar bilíngues para poderem participar das duas comunidades. Pode-se falar do bilinguismo social e individual, o primeiro é quando uma comunidade por algum motivo precisa utilizar duas línguas, o segundo é a opção de um indivíduo para aprender outra língua além da sua materna. Geralmente os membros das minorias linguísticas se tornam indivíduos bilíngues por estarem inseridos em comunidades linguísticas que utilizam línguas distintas. Em todos os países os Surdos são minorias linguísticas como outras, mas não devido a imigração ou à etnia, já que a maioria nasce de famílias que falam a língua oficial da comunidade maior, a qual também pertencem por etnia; eles são minoria linguística por se organizarem por associações onde o fator principal de integração é a utilização de uma língua gestual-visual por todos os associados. Sua integração está no fato de terem um espaço onde não há repressão de sua condição de Surdo, podendo se expressar da maneira que mais lhes satisfazem para manterem entre si uma situação prazerosa no ato da comunicação. Quando imigrantes vão para outros países formando guetos a língua que levam geralmente é a língua ofical da sua cultura, sendo respeitada enquanto língua no país onde imigram, mas as línguas dos Surdos por serem de outra modalidade - gestual-visual - e por serem utilizadas por pessoas consideradas "deficientes" por não poderem na maioria das vezes expressarem-se como ouvintes eram desprestigiadas e até bem pouco tempo proibidas de serem usadas nas escolas e em casa de criança surda com pais ouvintes. Este desrespeito fruto de um desconhecimento gerou um preconceito e pensava-se que este tipo de comunicação dos surdos não poderia ser língua e se os surdos ficassem se comunicando por "mímica" eles não aprenderiam a língua oficial de seu país. Mas as pesquisas que foram desenvolvidas nos Estados Unidos e na Europa mostraram o contrário. Se uma pessoa surda puder aprender a língua de sinais da sua comunidade surda à qual será inserida, ela terá mais facilidade em aprender a língua oral-auditiva da comunidade ouvinte a qual também pertencerá porque nesse aprendizado que não pode ouvir os sons que emite, ela já trará internalizado o funcionamento e as estruturas linguísticas de uma língua de sinais a qual pôde receber em seu processo de aprendizagem um feed-back que serviu de reforço para adquirir uma língua por um processo natural e espontâneo. Isso ocorre porque todas as línguas se edificam a partir de universais linguísticos,
variando apenas em termos de sua modalidade (oral-auditiva ou gestual-visual) e suas gramáticas particulares, transformando-se a cada geração a partir da cultura da comunidade Lingüística que a utiliza. Daí é preconceito e ingenuidade dizer hoje que uma língua é superior a qualquer outra já que ela enquanto sistemas linguísticos independem dos fatores econômicos ou tecnológicos, não podendo ser classificadas em desenvolvidas, subdesenvolvidas ou ainda primitivas. As línguas se transformam a partir das comunidades linguísticas que a utilizam. Uma criança surda precisará se integrar a Comunidade Surda de sua cidade para poder ficar com um bom desempenho na língua de sinais desta comunidade. Como os surdos estão em duas comunidades precisam manter esse bilinguismo social e uma língua ajuda na compreensão da outra.

Uma breve retrospectiva da educação dos surdos no Brasil ( I )


O mais antigo registro que menciona sobre a "Língua de Sinais" é de 368 a.C, escrito pelo filósofo grego Sócrates, quando perguntou ao seu discípulo: "Suponha que nós, os seres humanos, quando não falávamos e queríamos indicar objetos uns para os outros nós fazíamos como fazem os surdos mudos, sinais com as mãos, cabeça e demais membros do corpo?" Nessa comunicação de ideias por outros sentidos a comunicação se dá através dos olhos nos sinais feito pelas mãos, expressão facial, corporal e às vezes também sons tudo simultaneamente ou também sequenciado e a pessoa precisa ficar atenta a todas essas expressões para entender o que está se dizendo. Este é o universo de uma pessoa que utiliza uma língua de modalidade gestual-visual.
 A comunicação por sinais foi a solução encontrada também pelos monges beneditinos da Itália cerca de 530 d.C, para manter o voto do silêncio.
 Mas pouco foi registrado sobre esse sistema ou sobre os sistemas usados por surdos até os Renascenças mil anos depois. Até o fim do século XV não havia escolas especializadas para os surdos na Europa porque na época os surdos eram considerados incapazes de serem ensinados. Por isso as pessoas surdas foram excluídas da sociedade e muitas tiveram sua sobrevivência prejudicada. Existiam leis que proibiam o surdo de possuir ou herdar propriedades, casar-se ou votar como os demais cidadãos. Muitos surdos foram excluídos somente porque não falavam o que mostra que para os ouvintes o problema maior não era a surdez propriamente dita mais sim a falta de fala. Daquela época até hoje ainda muitos ouvintes confundem a habilidade de falar com voz com a inteligência desta pessoa, embora a palavra "fala" esteja etimologicamente ligada ao verbo/pensamento/ação e não ao simples ato de emitir sons articulados. Apesar desse preconceito generalizado, houve pessoas ouvintes que desenvolveram métodos para ensinar surda a língua oral de seu país como, por exemplo, um italiano chamado Girolamo Cardando, que utilizava sinais e linguagem escrita e um espanhol monge beneditino, chamado Pedro Ponce de Leon que utilizava além de sinais treinamento da voz e leitura dos lábios. Entre estas pessoas que começaram a educar os surdos algumas acreditaram que a primeira ira etapa da educação deles devia ser um ensino da língua falada, adotando uma metodologia que ficou conhecida como "método oralista puro". Outras utilizaram a língua de sinais já conhecida pelos alunos como meio para o ensino da fala, foi o chamado "método combinado". Entre os adeptos da segunda proposta estavam os professores Juan Pablo Bonet da Espanha; o Abbé Charles Michel de L'Eppe, da França; Samuel Heinicke e Moritz Hil, da Alemanha; Alexandre Graham Bell, nascido na Escócia mas que morou no Canadá e nos Estados Unidos e Ovide Decroly na Bélgica. Destes professores o mais importante do ponto de vista do desenvolvimento da língua de sinais brasileira foi L'Eppe, porque de seu instituto na França que veio para o Brasil o Profº Huet , um professor surdo que a convite de Dom Pedro II trouxe este "método combinado, criado por L'Eppe para trabalhar com os surdos do Brasil. Em 1857 foi fundada a primeira escola para surdos no Brasil, o instituto dos Surdos-Mudos , hoje Instituto Nacional da Educação de Surdos (INES). Foi a partir deste instituto que surgiu da mistura da Língua de Sinais Francesa trazida pelo profº Hurt com a Língua de Sinais Brasileira antiga já usada pelos surdos de várias regiões do Brasil, a Língua Brasileira de Sinais. O Instituto de L'Eppe contribuiu também para o desenvolvimento da LIBRAS porque em 1896 houve nesta escola um encontro Internacional que avaliou a decisão do Congresso Mundial de Professores de surdos que tinha ocorrido em 1880, em Milão. A pedido do governo viajou para França, o antigo Instituto, A.J. de Moura e Silva para avaliar aquela decisão de que todos os surdos deveriam ser ensinados pelo "método oralista puro". Moura e Silva concluiu em seu relatório que este método não podia servir a todos os surdos. Assim o antigo Instituto continuou como um centro de integração para o fortalecimento do desenvolvimento da LIBRAS, pois segundo relatório do Diretor Dr. Tobias Rabello Leite de 1871 esta escola já possuía alunos vindos de várias partes do país e após dezoito anos retornavam às cidades de origem levando com eles a LIBRAS.

 Fonte: Curso básico LIBRAS em contexto (Curso básico).

As comunidades surdas do Brasil


Há pessoas surdas em todos os estados brasileiros e muitas dessas pessoas vêm se organizando e formando associações, pelo país, que são as comunidades surdas brasileiras. Como o Brasil é muito grande e diversificado, essas comunidades se diferenciam regionalmente em relação a hábito alimentar, vestuário e situação sócio-econômica, entre outros. Esses fatores geram também variações linguísticas regionais.
As comunidade urbanas Surdas no Brasil tem como como fatores principais de integração a Libras, os esportes e interações sociais, por isso elas tem uma organização hierárquica constituída por: uma Confederação Brasileira de Desportos de Surdos (CBDS); seis Federações Desportivas e aproximadamente 113 associações/clubes/sociedades/congregações, em várias capitais e cidades do interior, segundo dados de diretoria da Feneis.
A CBDS, fundada em 1984, tem como proposta o desenvolvimento esportivo dos surdos do Brasil, por isso promove campeonatos masculino e feminino em várias modalidades de esporte em nível nacional. Seus representantes são escolhidos, através de voto secreto, pelos representantes das Federações. Recentemente esta Confederação filiou-se a Confederação Internacional e os surdos brasileiros tem participado de campeonatos esportivos internacionais.
As Associações de surdos, como todas as associações, possuem estatutos que estabelecem os ciclos de eleições, quando os associados se articulam em chapas para poderem concorrer a uma gestão de dois anos geralmente.
Participam também dessas comunidades, pessoas ouvintes que fazem trabalhos de assistência social ou religiosa, ou são intérpretes, ou são familiares, pais de surdos ou cônjugues, ou ainda amigos e professores que participam ativamente em questões políticas e educacionais e por isso estão sempre nas comunidades, tornando-se membros. Os ouvintes que são filhos de surdos, muitas vezes, participam dessas comunidades desde de criancinhas o que proporciona o domínio da Libras, como de primeira língua. Estas pessoas muitas vezes se tornam intérpretes: primeiro para os próprios pais depois para a comunidade.
Os surdos, que são membros das associações, estão sempre interagindo com outras associações de outros estados ou cidade, como também com as Federações a Confederação e a FENEIS.
Diferentemente da CBDS das Federações desportivas e associações que se preocupam com a integração entre os surdos, através dos esportes e lazer a Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos(FENEIS -www.feneis.org.br) é uma Entidade não governamental, registrada no Conselho Nacional de Serviço Social/MEC e não está subordinada à CBDS sendo filiada a World Federation of the Deaf.
A FENEIS foi fundada em 1987, quando os surdos resolveram assumir a liderança da Federação Nacional de Eduacação e Integração do Deficiente Auditivo (FENEIDA) que surgiu da iniciativa de várias escolas, Associações de Pais e outras instituições ligadas ao trabalho com Surdos. Sua sede é no Rio de Janeiro, mas já possui dez regionais: Belo Horizonte, Teófilo Otoni, Brasília, Porto Alegre, Curitiba, Florianópolis, São Paulo, Recife, Fortaleza e manaus.
Atualmente com mais de 100 entidades filiadas (escolas, APADAs, institutos e outras instituições), a FENEIS atua como um órgão de integração dos surdos na sociedade, através de convênios com empresas, instituições que empregam Surdos, MEC-SEESP, CORDE e SEDUC estaduais e municipais, bem como tem promovido e participado de debates, seminários, câmaras técnicas, congressos nacionais e internacionais em defesa dos direitos dos Surdos em relação à sua língua, à educação, a intérpretes em escolas e estabelecimentos públicos, a programas de televisão legendados, assistência social, jurídica e trabalhista; como também tem assento no CONADE para defender os direitos dos Surdos.
Os surdos que participam dessas comunidades tem assumido uma cultura própria. A Cultura Surda é muito recente no Brasil, tem pouco mais de cento e vinte anos, mas convivendo-se com essas Comunidades Surdas pode-se perceber uma identidade surda, ou seja, característica peculiares, como:
A maioria das pessoas Surdas prefere um relacionamento mais íntimo com uma pessoa Surda; Suas piadas envolvem a problemática da incompreensão da surdez pelo ouvinte que geralmente é o "português" que não percebe bem ou quer dar uma de esperto e se dá mal;
Seu teatro já começa a abordar questões de relacionamento, educação e visão de mundo das pessoas Surdas. Isso pode ser visto em peças que a Companhia Surda de Teatro no Rio de Janeiro, vem apresentando;
O Surdo tem um modo próprio de olhar o mundo onde as pessoas são expressões faciais e corporais. Como fala com as mãos, evita usá-las desnecessariamente e quando as usam, possui uma agilidade e leveza que podem se transformar em poesia.
Os Surdos que frequentam esses espaços de Surdos, convivem com duas comunidades e cultura: a dos surdos e a dos ouvintes e precisam utilizar duas línguas: A Libras e a língua portuguesa. Portanto, numa perspectiva sócio-lingüística e antropológica, uma Comunidade Surda não é um "lugar" onde pessoas deficientes que tem problemas de comunicação se encontram, mas um ponto de articulação política e social porque cada vez mais os Surdos se organizam nesses espaços enquanto minoria lingüística que lutam por seus direitos lingüisticos e de cidadania, impondo-se não pela deficiência mas pela diferença.
Vendo por esse prisma, pode-se falar de Cultura Surda, ou seja, Identidade Surda. O Surdo é diferente do ouvinte porque percebe e sente o mundo de forma diferenciada e se identifica com aqueles que também apreendendo o mundo como Surdos, possuem valores que vem sendo transmitidos de geração em geração independentemente da Cultura dos ouvintes a qual também se inserem.
Fonte: Libras em contexto (FENEIS)

sábado, 9 de agosto de 2014

Ao longo dos anos, as pesquisas interdisciplinares sobre surdez e sobre as línguas de sinais, realizadas no Brasil e em outros países, tem contribuído para a modificação gradual da visão dos surdos, compartilhada pela sociedade ouvinte em geral.
Esses estudos têm classificado os surdos em duas categorias:
  • Os portadores de surdez patológica, normalmente adquirida em idade adulta;
  • E aqueles cuja surdez é um traço fisiológico distintivo, não implicando, necessariamente, em deficiência neurológica ou mental; antes, caracterizando-os como integrantes de minorias lingüístico - culturais; este é o caso da maioria dos surdos congênitos.
O fato de integrarem um grupo lingüístico-cultural distinto da maioria lingüística do seu país de origem, equipara-os aimigrantes estrangeiros. Porém, o fato de não disporem do meio de recepção da língua oral, pela audição, coloca-os em desvantagem em relação aos imigrantes, com respeito ao aprendizado e desenvolvimento da fluência nessa língua. Essa situação justifica a necessidade da mediação dos intérpretes em um número infinito de contextos e situações do quotidiano dessas pessoas.
Devido ao bloqueio auditivo, seu domínio da língua oral nunca poderá se equiparar ao domínio da sua língua materna de sinais, ainda que faça uso da leitura labial, visto que, essa técnica o habilita, quando muito, a perceber apenas os aspectos articulatórios da fonologia da língua. Daí sua enorme necessidade da mediação do intérprete de língua de sinais.
No caso específico dos surdos brasileiros, cuja língua materna de sinais é a LIBRAS, os intérpretes que os assistem são chamados de “Intérpretes de LIBRAS”.
No Brasil, existem pelo menos duas situações em que a lei confere ao surdo o direito a intérprete de LIBRAS:
  • nos depoimentos e julgamentos de surdos (área penal);
  • e no processo de inclusão de educando os surdos nas classes de ensino regular (área educacional).
Devido as constantes modificações e progresso neste campo, nas concepções de ensino de língua de sinais, atualmente, tem-se dado ênfase ao mecanismo de aprendizado visual do surdo e a sua condição bilíngüe-bicultural. Contudo, o surdo ébilíngüe-bicultural no sentido de que convive diariamente com duas línguas e culturas: sua língua materna de sinais(cultura surda) e língua oral( cultura ouvinte), ou de LIBRAS, em se tratando dos surdos brasileiros.